PN Sierra de Andújar - "O Lince Ibérico"

De 13 a 17 de Maio de 2010

Começamos por entreter a ansiedade pronunciando repetidamente a melodiosa designação do nosso destino: Andújar..., Andujar..., Anduyar... E, neste enleio próprio de quem parte à conquista de novos lugares, vamos imaginando a grandiosidade harmónica dos vales  e dos cumes escarpados,  por onde aves majestosas piam sobre as nossas cabeças, punindo o silêncio manhoso dos veados acoitados nos matorrales ou à sombra dos chaparros. Numa comparação instantânea vinda da sua profunda tarimba, o Paulo logo associa a paisagem da Serra de Andújar ao ecossistema típico das serranias alentejanas de Barrancos.  «É muito parecido!....»

  O Parque Natural de Andújar (topónimo naturalmente de origem árabe), componente extraordinária da famosa cordilheira da Serra Morena, exige-nos um pequeníssimo sacrifício de sete horas de automóvel (uns 700 quilómetros), sofrimento que não é nada comparável aos enormíssimos ganhos que obtém o visitante daquelas terras andaluzas.

Tendo saído da Póvoa de Varzim por volta das 7h30, cruzámos ao meio-dia a fronteira do Caia. E, depois de uma breve pausa para o almoço nas proximidades de Zafra, chegámos bem cedo à pequena cidade de Andújar, depois de fisgar o Guadalquivir e de admirar grandes parques de produção de energia solar.  Virgem por aquelas paragens, vou muito atento a qualquer detalhe:

-«Olha tantas papoilas! Há que tempos eu não via flores de papoila!».

A rota foi cumprida facilmente, via Badajoz e Córdoba, por estradas rápidas sem portagens,  na companhia intermitente de chuvascos muito jeitosos para limpar os vidros.  Algum vento frio nas primeiras horas da missão fotográfica.

Ao jantar, provámos carne de veado (carne do monte), elogiámos as saborosas azeitonas e assentámos numa diária de ensalada mista, inseparável do ovo e do atum. Aliás, a gastronomia local tem no ovo um ingrediente omnipresente. Ele é ovo na salada, ovo com cogumelos, ovo nos doces; e ovo frito, cozido, enfim..., bem podiam considerar a Galinha um animal sagrado.  Uma pena andarmos na abstinência de álcool, já que os vinhos andaluzes pedem meças...  Mas à volta do Parque Natural de Andújar não existem muitas tascas, pelo menos no Inverno e na Primavera. Daí que recomende aos naturalistas  um bom farnel para cada saída de campo.

De resto, fizeram-se observações diárias em locais de espera aos quais só podíamos aceder de automóvel dada a sua longa distância. 

Situado na Província de Jaén, um dos últimos redutos do lince é um ponto de visita obrigatória não só para observar este fascinante carnívoro, mas também para vivenciar um importante santuário de vida selvagem, que não defrauda nenhuma das nossas curiosidades. A par do Lince, a Águia Imperial Ibérica está em franca recuperação, pois os espanhóis conseguiram duplicar o número de aves a partir dos anos 90. É mais um dos atractivos do sudoeste peninsular, enquanto houver muitos coelhos para comer e azinheiras para fazer o ninho. Nos cumes rochosos, empoleiram-se e nidificam o grifo e o abutre-negro. Mas nesta jóia do património ambiental ibérico, haveremos de gastar a maioria das fotos com os ruminantes selvagens, dado tratar-se de um sítio muito bom para este efeito.  Com 75 mil hectares, o Parque de Andújar é um portento cinegético de regras muito apertadas na procura da caça maior. Não é fácil a gente meter-se pelas enormes fincas, a não ser caminhando por senderos autorizados.

À saída das localidades, ficamos logo em sentido: “ATTENCION PASO DE LINCES Modere su velocidad”. E como compensa  ir devagar!

Logo à chegada, na quinta-feira, ainda houve tempo para um primeiro reconhecimento ao trajecto que diariamente iríamos percorrer escrupulosamente, tendo como fito principal a observação das aves e dos mamíferos. Em final de Primavera, seguindo a estrada pública entre o nosso local de alojamento e a barragem do Jándula,  pressente-se o advento da época mais quente, com alguns riachos a ficaram já ressequidos.

Avistámos as primeiras manadas de gamos e de veados, sempre vigiados por muitas pêgas azuis e pêgas-rabudas, bandos de abelharucos…  E gralhas, corvos, melros, pombas.....

 

O Parque está bastante vigiado pelo patrulhamento regular de guardas, mas quando estes não estão presentes sente-se por todo o lado o peso institucional: Junta de Andalucía – Medio Ambiente.  Para nós,  basta-nos o grande respeito que toda a Natureza nos merece. Além da proibição de ruídos e vibrações desproporcionados, a protecção está atenta a outros factores de poluição, incluindo a contaminação da água (uma só gota de óleo derramado afecta 25 litros de água de consumo humano). Depois, é claro, muito cuidado com os incêndios e uma restrição quase absoluta da prática do campismo. Apesar disso, alguns amantes da lincemania, por hábito, poupança e ganância de ver o máximo que podem no mais curto lapso de tempo, não hesitam em dormir de forma improvisada nos carros ou em sacos-cama.

Especialmente orgulhosos da limpeza e da qualidade do ar, os residentes na área protegida, andujareños ou andurenses,  são muito escassos, até porque vivem limitados por  um conjunto de intermináveis coutos de caça, que chega a ser inacreditável  pensar como pode alguém, individual ou familiarmente considerado, ser dono de herdades tão medonhas,  que seriam necessárias semanas para lhes dominar o conteúdo a as formas.

Mas é este o reino do Lince Ibérico, um dos últimos grandes predadores da nossa fauna peninsular.

Para ter o melhor êxito, há que rever, em próximos safaris, o material e equipamento de cada um. Até porque o felídeo é dissimulado: tem um dorso mimético cujas pintas distribuem-se tal como os líquenes e musgos enfeitam as penedias. Lá está, tem de se ter olho de lince!

Na sexta-feira, primeira investida a sério nos confins do sistema montanhoso, onde pedaços de afloramentos graníticos contrastam nitidamente com as planícies argilosas e arenosas do Guadalquivir.

Segundo dia esgotado e o gato-cravo dando apenas sinais indirectos da sua existência. Olhos cansados miram e miram os locais de avistamento anotados por alguns sortudos. Nos seus redutos desconfiados, o lince deve estar a controlar todos os nossos movimentos a uma distância considerável de 300, 500, 1000 metros…. 

Gatarrões sentados placidamente nos penedos, apanhando banhos de sol e lambendo os parasitas, povoam os sonhos de uma noite mal dormida à conta do mau funcionamento da calefación. Nada que desanime!

No Sábado, madrugámos ainda mais na esperança de ver alguns animais próximo da estrada. E fomos recompensados: num campo de erva, a cerca de 50 metros, um vulto negro deixou de estar imóvel e desatou a correr... Era um javali selvagem adulto, que conseguimos fotografar com alguma dificuldade. As manhãs ainda estão frias e não dá muito para levar as janelas do carro sempre abertas.

   

A paciência necessária para observar o lince selvagem é comparável à espera muitas vezes infrutífera do lobo ibérico, que também se pode ver, com acentuada raridade, nos montes da Sierra Morena.  No sábado, aumenta o número de fotógrafos e de observadores, mas não se confirma o que temíamos: uma invasão típica do fim-de-semana. Ainda assim, juntam-se adultos de várias nacionalidades.

Os grifos planam e também são imperiais! Há muitas rolas, perdizes e pombos bravos que se juntam às pêgas num coro insinuante. Enquanto os binóculos varrem o campo, foi detectada uma gralha de bico vermelho, emitindo um grasnar típico: “crac!...crac!... crac!. Voando sobre a Barragem do Jándula, confirmamos outro residente honorário: a bela Cegonha Negra.

No domingo, foi o dia em que nos levantámos mais cedo: 5 horas da matina, escuro como breu. De súbito, um noitibó especado durante largos segundos no meio da estrada. Passam às primeiras horas do dia vários carros e jipes com barcos atrelados. Vão para um dia de pescaria na albufeira.

Voltámos a cumprimentar os touros de lide, criados sobretudo na herdade de Los Escoriales. Um antigo depósito de escórias de prata e de cobre, agora rodeado de cercados para criar reses bravas, as quais se alimentam em artísticos comederos de granito. E estamos em altitudes acima dos 500 metros, podendo os cumes mais altos atingir os 1200 m.

Alguém avisa: uma águia real pousada num poste. E depois uma águia imperial a voar baixo sobre o cume. Um frio de rachar, com o sol muitas vezes encoberto e o vento a morder a cara. Ao longe, o Santuário de Nossa Senhora da Cabeça é a única marca urbana no horizonte. Metido com os meus botões e depois de ter visto tantos e tantos a rabiar, interrogo-me e lamento: “que pena o restaurante não servir coelho bravo!”.  Mas há muita carne de caça, incluindo a abundante perdiz , o javali, etc...

 Por volta das 9h30, já com os olhos doridos de tanto mirar os territórios do misterioso gato, um dos observadores detectou, num dos socalcos, apenas ao alcance do telescópio, uma  família completa de javalís  pastando tranquilamente; e de modo a poder a gente maravilhar-se com a graciosidade daquelas crias, já muito activas.

Estamos no último dia útil do nosso safari. Ainda veremos o lince de perto? Decidimos arriscar e ficar na montanha todo o santo domingo, adivinhando um dia feliz. El Gato Clavo não podia resistir à nossa paciência e laboriosa concentração. Finalmente, o tempo aqueceu e o Sol brilha com intensidade, iluminando assim as colinas desenhadas pelas azinheiras, muita esteva, imenso alecrim, touças e touças de lavandas. Estamos sempre de olho na pêgas-rabudas, que dão sinal do lince, a quem perseguem e chateiam na ânsia de o afugentar.  E, nesse afã, tornam-se nossos grandes aliados. Passámos pelas brasas.  Não há condições para fotografar. Cai um silêncio profundo nos montes e vales, apenas cortado pelo trilar cadenciado dos ralos. Desde o nosso miradouro, temos uma panorâmica estratégica. Boa também para avaliar de novo a flora: mirtilo, medronheiro, carvalhos, algum freixo nas linhas de água;  urzes e giestas compondo recônditas madrigueras. Entre bolachas e água, com o carro abrigado à sombra do azinho, esticámos as costas e damos tréguas aos olhos.

 

De súbito, o descanso é agitado por mais um sinal da presença do lince:..méééuu…méééuu …méééuu. Não se percebe bem de onde, chega-nos este rugido familiar: talvez uma cria?... Mas o animal deixa rapidamente de se manifestar.

O felídeo de rabo atarracado e orelhas pontiagudas, pode ser visto tanto de dia como de noite. Isto, enquanto resistirmos à destruição do ser habitat natural.

Quando as sombras começam a invadir as encostas e os veados saem finalmente da longa sesta e reactivam a procura da melhor vegetação, é também a hora do lince abandonar os locais de esconderijo. Aumenta a tensão, algo de milagroso  pode estar para acontecer…. A conversa serve para espalhar um nervosismo calmo.

Eis finalmente o alerta:  «O gato…ali vai um....» Todos se precipitam para as objectivas, buscando a forte sensação: um adulto atravessou o estradão de terra e embrenhou-se numa vertente oculta, mesmo longe do miradouro. Não se conseguem imagens muito esclarecedoras, mas dá para entender toda a nobreza do animal. Tem uma aparência simplesmente incrível! E como este, só existem pouco mais de cem, em todo o Mundo!!...

A sua relativa prosperidade em Andújar deve-se, em parte, à proliferação do coelho, a sua principal base de alimentação. Mas tendo fome põe as garras onde pode. Em excrementos, observámos, por exemplo, restos de uma serpente.

 Há que vigiar também os céus, para descansar a retina e controlar os movimentos dos rapaces, incluindo uma vasta gama de falcões.

Começa a fase crespuscular, altura em que os animais baixam a guarda e saem. Decidimos fazer mais uma tentativa para ver o carneiro muflão, bem como para flashar os gamos.

Já com pouca luz para fotografar, e numa altura em que verificávamos se o mocho galego estaria outra vez a controlar a nossa passagem sentado na vedação de rede ovelheira, aparece a correr à frente do carro uma fera do tamanho de um cão.

- «Não, não é cão vadio... É ele, é o lince!»

Talvez  por sentir o carro na sua direcção, o felídeo correu alguns metros ao longo da estrada e, não tendo optado por saltar a rede, aproveitou um buraco na vedação para se meter por entre as plantas. Ainda saímos do carro para uma última e rápida olhadela.

 Encontros imediatos com este grau emocional são raros mas podem acontecer. Por mera casualidade, havíamos estado bem pertinho do maravilhoso lynx pardinus, num local menos improvável: uma estrada de asfalto,  já próximo de zonas residenciais.  Tenho um mau pressentimento sobre esta convivência.. Em Agosto de 2009, o jornal El Mundo revelou que um macho, de quatro meses de idade, foi mortalmente atropelado, precisamente na região de Andújar, numa zona de olivais e, por sinal, longe dos territórios referenciados pela fotoidentificação e o rádioseguimento.

No jantar de véspera da partida, lá cumprimos o combinado: uma prova de escalopinos de gamo, espécie alóctone bem adaptada às montanhas e vales da Andaluzia. Mas o prato típico, como disse, é mesmo a carne do monte, um guisado com pedacinhos de veado. A perdiz de escabeche e um revuelto de espárragos trigueros pontificam na ementa local.

 Tanta coisa haveria para relatar… Mas não será certamente a última aventura naquelas paragens. E como será o parque no tempo da berrea, ou durante o celo del  lince? E como será observar os hábitos do raro muflão?

Andújar vale a bem uma segunda e uma terceira oportunidades... Ver um lince em liberdade é uma experiência comovente, fascinante, mesmo arrepiante!!

O passeio teve um regresso muito rápido, tranquilo e proveitoso, se bem que agora com bastante calor. Desta vez, parámos para almoçar em Campo Maior e assim matámos saudades do arroz, da sopa de legumes e dos nossos hábitos mais arreigados.

Não posso terminar sem louvar mais esta bem sucedida experiência que nos proporcionou o impagável super-guia, Paulo Anjo. Que assim pode acrescentar ao seu portfólio um mamífero de características ímpares.

 Obrigado, companheiro!

Domingos Xavier