PN de Noudar, Alentejo - “O despertar da Primavera”

De 8 a 11 de Abril de 2009

08/04/2009 – Quarta-feira

Num rasgo de iniciativa, pus-me á estrada c/ a minha filha Mariana (8 anos) em direcção a Barrancos, Herdade da Coitadinha cita no Parque de Natureza de Noudar, para embarcar na aventura “ O Despertar da Primavera”

Após 5 horas e meia de viagem, cheguei finalmente a Barrancos, parando numa bomba de gasolina, para esticar o pernil e meter conversa com as gentes locais, que muito simpaticamente partilharam connosco o seu sotaque barranquenho.

Ainda me esperava uma última esticada de 12 km por um terreno acidentado de terra batida para finalizar esta viagem.

Chegamos perto das 16.30, telefono ao Paulo avisando da nossa chegada. Poucos minutos depois encontro-o refastelado na esplanada da herdade à nossa espera. Após uma rápida apresentação, lá fomos encaminhadas para os nossos aposentos.

Ficamos hospedadas na “Casa da Malta”. Um agradável espaço, resultado de recuperações de antigas estruturas do monte da herdade. Quartos duplos com camas individuais, camaratas, cozinha totalmente equipada, para uso dos hospedes, e uma sala espaçosa com um design de lareira, de sistema rotativo, muito bem arquitectada e da qual não fizemos uso, uma vez que o calor convidava a sair.

Após um duche rápido, montamos nas sapatilhas e partimos á aventura, num final de tarde maravilhoso. Entremeando conversa sobre flores, fotografia e vegetação, chegamos à ribeira, onde me deparei com uma paisagem única.

 

A Primavera anunciava-se com um manto branco de estevas em flor que cobriam o rio e uma orquestra de batráquios recepcionaram-nos, só faltava a música de fundo do Paul Mccartney – We all stand together, isto tudo regado com o aroma mediterrânico,  característico deste local. Esta paisagem sublime convidou-nos a sentar, junto à ribeira para num só golpe absolver toda aquela plenitude.

Os cágados aqueciam-se ao sol nas pequenas rochas que acidentavam a ribeira, mas depressa mergulhavam para esconderem as carapaças passando deste modo despercebidos.

Os grilos não paravam de cantarolar e o céu enfeitou-se com a passarada, abelharucos, águias e uma concentração estranha de abutres. Os abutres aglomeravam-se no céu, levando o Paulo a pressupor a existência de algum cadáver bovino, que tenha despertado o interesse destes necrófagos.

Ficamos sentados em silêncio e quase imóveis na esperança de sermos brindados com a presença da lontra, amiga matinal do Paulo, mas deve-se ter perdido no shopping.

Regressamos para um jantar confeccionado por nós e uma recolha cedo aos nossos aposentos, para nos recompor da viagem.

Entre a excitação da Mariana e a minha ansiedade, tivemos dificuldade em adormecer.

Estranhando o espaço, a Mariana arranjou um pretexto engenhoso para se enfiar na minha cama, justificando uns barulhos que ouvíamos no telhado, como sendo tarântulas a sapatear e imaginem só, tinha um javali debaixo da cama. Que imaginação fértil!

 

09/04/2009 – Quinta-feira

Fomos acordadas com o barulho ensurdecedor de pássaros, no telhado do quarto. Afinal Mariana, não eram tarântulas. Que chinfrim, pareciam estar a discutir sobre o melhor lugar ao sol.

O dia estava lindo, um sol abrasador convidou-nos para a manga curta.

Depois de equipadas, direccionamo-nos para a sala comum, externa às instalações da casa para o pequeno-almoço. Na sala de decoração rústica, harmoniosamente simples, esperava-nos um pequeno-almoço majestoso. Café, leite, chá, sumo de laranja, cereais, queijo, fiambre, fruta da época, doce típico, geleia, manteiga, mel, biscoitos e o PÃO. Aí o pão quente, servido em sacos de pano com fundo falso, onde depositam caroços de cerejas previamente aquecidas, numa tentativa, bem sucedida de conservar a temperatura, mantendo o pão quente. 

O Paulo juntou-se a nós e elaborou o roteiro do dia.

Metemo-nos aos trilhos, nuns carrinhos eléctricos, silenciosos, amigos do ambiente, facultados gratuitamente aos hóspedes. Com algumas paragens para fotografar abrigos, flores, paisagem seguimos pela estrada principal, estacionando a locomotiva mais á frente, uma vez que alguns acessos estão vedados, obrigando ao passeio pedestre muito mais contemplativo.

Nesta nova aventura a Mariana trouxe uma amiga – A Macha. Uma cadela pastora alemã que pertence à herdade e gosta de se fazer de convidada. Descemos até á ribeira e mais uma paisagem maravilhosa.

Águas correntes límpidas, transbordam numa pequena cascata, passando por um moinho.

A Macha atira-se á água, aguçando-nos a vontade de fazer o mesmo mas não estávamos devidamente equipados. Sentamo-nos junto ao moinho e trocamos alguns dedos de conversa.

Seguimos viagem, com destino ao Castelo de Noudar que faz parte da herdade. Do alto do castelo deparo-me com uma paisagem deslumbrante. O relevo acidentado avistado, oferece um cenário de montes e vales onde correm as ribeiras do Murtega e do Ardila. A natureza bravia avistada, é sem dúvida um convite perfeito aos amantes da natureza.

Regresso à herdade e após o almoço, consagrei exclusivamente à Mariana as primeiras horas da tarde. Fomos ao parque das merendas – nome que dei a um pequeno recinto vedado, que dispões de algumas mesas de madeira improvisadas e um baloiço. Após uns bons balanços e umas valentes gargalhadas, visitamos a horta da herdade, para conhecer algumas plantas aromáticas, usadas para chás e condimento.

De seguida um percurso pedestre curto pelo trilho dos bovinos para conhecer as vacas, os cavalos e os burros.

Tropeçamos igualmente num cadáver de bezerro que deve ter falecido á nascença. A mãe vaca não permitia aproximação. De imediato recordei o cenário de abutres do dia anterior e apresei-me a contar ao Paulo. No entanto, ele foi informado da existência de um outro cadáver bovino, de grande porte que estava a servir de manjar a 40 abutres.

Entusiasmados, porque uma oportunidade destas é escassa, metemo-nos ao monte, seguindo as indicações que nos deram, com a esperança de encontrar um cenário National Geografic. Contudo, á nossa chegada, vislumbramos um único e talvez ultimo abutre a levantar voo. Para trás ficou o que restou de um cadáver, uma carcaça oca, coberta unicamente pela pele e um cheiro nefasto. Sim, porque eu tive que ir “cheiretar” para ver a coisa de perto. Por mórbido que seja, não posso deixar de admirar como limparam o interior da vaca, não deixando um único vestígio de carne.

Levados pelo impulso, lá fomos micar do outro lado do monte o cadáver de bezerro e eis que de relance vimos uma raposa que fugazmente desapareceu pelo descampado.

Regressei á herdade hilariante por ter visto de tão perto um abutre e uma raposa mas ao mesmo tempo desolada por ter perdido um espectáculo de 40 abutres.

 

10/04/2009 – Sexta-feira

Mais um daqueles pequenos-almoços e mais umas caminhadas. O tempo arrefecera e desta vez convida-nos á manga comprida e casacos. Que briol repentino. A chuva nocturna acalmou a poeira. Metemo-nos à estrada, desta vez para escutar o Bufo real. Equipado com gravador, lá fomos nós aventureiros encosta abaixo até á ribeira.

Desta vez a Mariana teve um encontro com uma serpente, que bateu em retirada, desaparecendo tão rapidamente quanto aparecera. Junto ao rio pastavam umas vacas, que nos olhavam com curiosidade e desconfiança. Mais à frente uma manada de cavalos que me prenderam a atenção. Duas éguas protegiam um potro da invasão. Passo a passo lá me fui aproximando numa tentativa de lhes por a mão e consegui. Que animais bonitos!

 

Sentamo-nos nas rochas, o Paulo accionou o gravador com o pear de bufo como chamariz. Como a escarpa rochosa do lado de lá da ribeira, serve de camuflagem perfeita a estas aves, impedindo-nos de as ver, recorre-se a este método numa tentativa de ouvir uma resposta ao som do gravador, levando a ave a denunciar a sua localização. Contudo não fomos bem sucedidos.

Seguimos viagem junto á ribeira sem antes parar para fazer mais uma festa às éguas. Junto à margem da ribeira passeava o Paulo na esperança de encontrar uma lontra e partilhar a experiencia.  Ao contrário de nós, ele foi diariamente brindado com uma. Eis que de repente, ele avista uma a mergulhar e pede-nos para nos baixar e ficar quietas, e assim fizemos. Mas…não tive sorte, perdi o momento e não vi a bicha.

Resolvi distrair-me tentando apanhar uma rã, para mostra-la de perto à Mariana. Nem isso consegui, parecem que têm molas nas pernas e mesmo fora de água, esgueiram-se de tal forma pela vegetação que é quase impossível apanhar uma. 

Preenchemos o resto do dia com um regresso ao bezerro para ver se houve alguma evolução durante a noite, mas nada. Estava quase intacto e a mãe vaca não arredava cascos. Ainda tivemos parados no carro eléctrico cerca de uma hora, mas acabamos por desistir. Unicamente, sobrevoavam uns corvos que não se atreviam a pousar.

Estava quase na hora do tão falado jantar. Desde a chegada à herdade que aguardamos um jantar planeado para o último dia, para encerrar em grande estas mini férias. Após um duche quente, vestimo-nos e direccionamo-nos à sala para o jantar. Mesa requintadamente posta, um conjunto louça branca com um design fora do comum chamou-me logo a atenção. Umas entradas de azeitonas, queijo, manteiga e pão. Catano, nunca enfardei tanto pão. Eu que nem sou amante de pão, apaixonei-me. É irresistivelmente viciante com manteiga.

Sopa de levístico, não me perguntem o que é porque não sei. Só sei que é uma erva aromática e espero não estar a dizer uma grande asneira. A sopa é divinal, cheira a caril mas o saber não tem nada a ver, estão a ver? Pois…

De seguida o prato principal, típico: Porco preto grelhado, acompanhado com batata a murro, brócolos e salada. Para finalizar, requeijão assado e um cafezinho.

Nuno, és sem sobra de dúvida um excelente anfitrião!

Para destilar aquele manjar demos um curto passeio mas o frio era muito. Recolhemos á “Casa da Malta” que desta vez fez jus ao nome. A sala estava mesmo cheia de malta. 

Para finalizar demos um último passeio nocturno na esperança de encontrar um veado ou javali mas, népia, ficamos a seco. 

E assim terminou “O despertar da Primavera”

O Parque de Natureza de Noudar é sem duvida um local a visitar, e para quem já visitou, regressar.

Vivi uma experiência rica, agradável e inesquecível. Guardarei na memória como refugio, o som dos pássaros, grilos, mocho, e rãs, a visão do manto das estevas em flor, as paisagens sublimes e deslumbrantes, com a plenitude do silêncio extra humano, usado como pano de fundo, o aroma que tanto caracteriza uma terra, o tacto da brisa doce e do sol quente, e o gosto da comida.

Em suma: Prenderam-me totalmente os sentidos!

Obrigada Paulo por esta experiência, pela paciência, companhia, conversa, e a partilha dos belos relatos das expedições à amazónia, que me ressuscitaram, e que me fizeram acreditar que para sonhar, basta estar vivo!

Otília Tavares