PN de Noudar, Alentejo - “Escutando o Bufo Real”

De 21 a 24 de Fevereiro de 2009

Dia 1 - Sábado, 21-02-2009

Após várias indecisões quanto à realização ou não desta ida ao Parque Natural de Noudar, por razões de doença (ou ameaça dela) nos vários membros inscritos, o Paulo lá acabou por decidir pela ida, isto já no próprio dia de saída para Barrancos. Foi suspense até ao fim…..

O local de encontro ficou marcado para a estação de serviço de Pombal, e à hora marcada, mais minuto, menos minuto, lá estavam todos os “escutas” do bufo real: o Paulo Anjo e a Marta e seus dois rebentos, a Joana e a Luísa, a Elisabete, a Rosana e eu, o Paulo Moreira.

A viagem interminável até Barrancos correu bem e como prémio à chegada, já noite, à beira da estrada de acesso à herdade da Coitadinha (os nossos aposentos) tínhamos uma recepção de seis veados, isso mesmo, seis veados. Estavam a pastar na berma da estrada afastados dela cerca de 20-30 metros.

Era um bom prenúncio. Nessa noite fomos todos deitar-nos a sonhar com resmas de animais à nossa espera na manhã seguinte.

 

Dia 2 - Domingo, 22-02-2009

Cansados da viagem, e numas excelentes instalações, só podíamos ter dormido até tarde, até porque o pequeno-almoço, com pãozinho quentinho, miniaturas de chila, sumo e bolo de laranja, café com leite, só era servido a partir das 9. No hall de entrada para a sala do pequeno almoço, esvoaçavam andorinhas num rodopio de fazer inveja.

Com um sol radioso a convidar à passeata, a nossa primeira visita matinal foi a descida da herdade até à ribeira de Murtega à procura de animais mas com o adiantado da hora já não assistimos ao repasto matinal da fauna local. Mas se não vimos animais, pelo menos deliciamo-nos com a paisagem em redor. O Alentejo está um espectáculo, em especial esta zona ondulada de montes e coberta de um manto verde salpicado por manchas de cores diferentes aqui e ali, a amarela e rocha das flores primaveris, com chaparros a forrar o quadro.

Com o calor já apertar que remédio se não voltar à herdade? Dito e feito!

O almoço foi ligeiro, sopinha de levístico magistralmente confeccionada pelo Nuno (o anfitrião), pão e fruta, seguido de um ligeiro período de descanso.

Chegou a meia tarde, e como a herdade disponibiliza carros eléctricos, silenciosos e não poluidores, pegamos em dois carros e iniciamos a busca aos animais. Percorremos os caminhos do parque natural de Noudar de lés a lés, descemos ao rio Ardila, um lugar lindíssimo e que na outra margem já é Espanha, mas à parte de algumas aves que por ali esvoaçavam, nada de lontras, bufos, raposas, lebres, javalis ou veados. Decidimos mudar de sítio, e trocamos o lugar baixo junto ao rio por um ponto no alto da montanha e aí, sim, surge o primeiro grande animal, um cão a espumar por todo o focinho – passou a ser o nosso amigo “cão baboso” que nos acompanhou todo o caminho de regresso até à herdade.

Pouco antes do anoitecer, eu e a Rosana aceitamos a sugestão do Paulo Anjo para subir a uma encosta que dava para um vale seguido de floresta e aí ficarmos, imóveis, durante algum tempo, a ver se ao anoitecer apareciam alguns animais. Uma hora de espera, silêncio absoluto, corpo hirto, olhos em sentido, binóculos em punho, mas o único acontecimento de registo foi uma sequência de atchins que não consegui mais conter. Quanto à bicharada, nada, fizera greve e não apareceu.

Voltamos à herdade desiludidos, mas com a firme decisão de na madrugada seguinte voltar à carga.

Antes do jantar ainda houve tempo para encenação de uma peça teatral infantil – os três porquinhos e o lobo mau – com os actores Joana, Luísa e Paulo.

Para o jantar esperava-nos sopa de levístico – que coisa deliciosa, quem come nunca mais esquece – tábua de queijos e enchidos, pãozinho quente, ovos mexidos com espargos e vinho alentejano.

Após o jantar a conversa foi pouca. Era preciso descansar para a espera da madrugada seguinte.

 

 

 

Dia 3 - Segunda, 23-02-2009

Estava eu ainda a acordar, seriam 7h, quando aparece o Paulo Anjo, em alvoroço, a dizer que tinha visto veados na estrada de acesso à herdade. Despachamo-nos, ele, eu e a Rosana e lá saímos à procura dos veados e da animalada. E não é que ao fim de 200 metros, numa curva da estrada calcorreada a pé, vimos quatro veados? Estavam ali à espera que o Paulo os fotografasse para depois “zarpar” a grande velocidade para nunca mais nenhum de nós lhes pôr a vista em cima. Animados com esta visão, descemos a pé até ao rio Ardila e andamos ao longo da margem fumegante até uma curva no rio. Ali, nas rochas da encosta escarpada do outro lado do rio “moraria” o bufo real. O Paulo Anjo que trouxera um leitor de CD e um CD com sons de animais onde se incluía o do bufo real, pôs a coisa a repetir o canto da ave e ali ficamos os três, imóveis, silenciosos e gelados, durante uma hora à espera. Em vão! O bufo real tinha ido de férias sem pré-aviso. Preparávamo-nos para regressar quando os olhos felinos do Paulo Anjo detectaram um mexer no rio. Era uma lontra, isso mesmo, uma lontra. Ali a 30 metros de distância uma lontra emergia e submergia numa actividade frenética de caça ao peixe. E durante 15 minutos assistimos, impávidos mas maravilhados, ao manjar interminável do bicho e que faz jus ao dito popular “comi que nem uma lontra”. Com direito a aproximação, pois a lontra foi-se chegando para a zona onde estávamos nadando até cerca de 5 metros de distância. Depois desapareceu no meio das rochas. Mas já o Paulo tinha disparado a sua máquina fotográfica 130 vezes! Modelo - Lontra para todos os gostos e feitios!

Era sinal para regressarmos ao nosso pequeno-almoço que foi “lontral”.

Depois, fomos todos a Barrancos, à excepção do Paulo Anjo. As ruinhas pequenas mas arranjadas, num sobre e desce que acompanham a montanha, as lojinhas pequenas mas tradicionais, as igrejinhas habitadas por Deus no interior e por cegonhas no exterior, motivaram uma visita de duas horas. Aproveitamos para fazer compras para o jantar.

Eram 15h e enquanto parte do pessoal descansava, o Paulo Anjo, a Elisabete e eu decidimos fazer uma caminhada até à ribeira de Murtega. Descemos o vale verdejante por onde pastavam inúmeras vaquinhas e ao chegar à ribeira eis que damos de caras com os cágados, esparramados em cima das pedras quentes junto à água, a aquecer ao sol. Mais do que cágados não vimos, mas a paisagem naquela zona era idílica, com o rio a correr calmo a montante e em “rápidos” a jusante.

Eram 16,30h quando o Paulo Anjo, a Elisabete e eu iniciamos nova aventura, desta vez de carrinho eléctrico. Andamos até ao início do caminho do moinho e depois calcorreamos a pé parte do caminho até ao local de espera do javali. A paisagem era deslumbrante, no alto da montanha com o rio a correr ao fundo, algumas centenas de metros abaixo. Mas animais, nem vê-los.

Ao anoitecer já na companhia da Rosana, decidimos percorrer de carro (a gasolina) toda a estrada da herdade à procura de animais. De repente, a atravessar a estrada, apareceu-nos uma raposa que rapidamente se entranhou no campo. Mesmo assim, apesar da penumbra que se abatia, ainda conseguimos vê-la durante alguns minutos. Desse momento, porém, não há registo fotográfico.

Conforme prometido às actrizes Joana, Luísa, voltou a haver, antes do jantar, a encenação de várias peças teatrais infantis, tantas que me esqueceu os nomes.

Para o jantar repetimos a sopa de levístico mas a tábua de queijos e enchidos desta vez foi preparada por nós, a acompanhar o pãozinho quente, e o vinho do Castelo de Noudar.

Após o jantar a conversa foi longa e muito interessante sobre as viagens fotográficas do Paulo Anjo à Amazónia. Criou água na boca, e de que maneira.

 

 

Dia 4 - terça, 24-02-2009

A amplitude térmica típica de uma zona alentejana interior foi fazendo as suas vítimas, a ponto de neste dia apenas eu e o Paulo Anjo nos pormos a pé disponíveis para a observação matinal da bicharada.

O frio era muito, e nós dois, ranhosos do nariz, optamos por fazer a pesquisa dentro do carro, aqui e ali com umas caminhadas a pé. Descemos ao rio Ardila, ali ficamos algum tempo, até que o Paulo avistou uma lontra ao longe a descer a margem e a infiltrar-se na água. Saímos do carro e corremos para o lugar mas a lontra tinha desaparecido ao longo dos vários kms de rio que a sua área de influência abrange. Depois subimos aos picos mais altos da herdade mas desta vez não vimos nenhum animal.

Era altura de voltar à base, tomar o pequeno-almoço, desta vez a incluir um delicioso bolo de banana, fazer umas compras na lojinha da herdade, fazer uma visita ao centro de interpretação, acertar as contas e abandonar aquele local maravilhoso.

Após uma lavagem dos carros, mascarados de castanho devido ao pó da estrada da herdade, despedimo-nos uns dos outros em Barrancos e iniciamos a viagem de regresso, cada um com vontade de repetir outras experiências propostas pelo Paulo Anjo a quem agradecemos (e vou falar por todos) ter-nos proporcionado um fim de semana fantástico.

 

Paulo Moreira