Parque Natural de Noudar - Barrancos

De 4 a 7 de Julho de 2008

            Nascida de um desafio lançado à volta de uma retemperadora sopa servida em tigela de alumínio à boa maneira das messes de praças, professores e outros soldados rasos, a viagem à longínqua Herdade da Coitadinha do Parque Natural de Noudar anunciava-se como uma experiência iniciática aos deleites da Mãe Natureza para a larga maioria dos nove aventureiros que não quiseram desperdiçar a oportunidade de escapar às brisas marítimas da nortenha orla costeira da Póvoa de Varzim.

            O longo e alegre périplo rumo às Terras do Além-Mondego obrigou a uma paragem regeneradora na Capital do Gótico onde entre suculentas massas e tenras picanhas se recarregaram energias. Antes do regresso à estrada abrasadora e às arrepiantes melodias do nosso querido Poeta Emigrante, ninguém quis partir sem se despedir do viciante conforto da moderna civilização, umas percorrendo boutiques de bugigangas enquanto outros delineavam trajectos e recalculavam rotas entre impacientes espreitadelas lançadas aos corredores e escadas rolantes.

            A chegada ao Alentejo profundo foi saudada por paladares famintos e ávidos de experimentarem sabores tão deliciosos quanto exclusivos de quem aprecia a arte de bem comer à mesa. Assim se provaram ali mesmo na Esquina os secretos e as plumas do aclamado porco preto.  

 

            Animados pelo inebriante repasto, os aventureiros deixaram a alva Vila de Barrancos montados nas suas motorizadas carruagens e enveredaram por caminhos sinuosos e poeirentos. Um teste à paciência e civismo do condutor urbano num quadro fantasmagórico pintado numa escuridão entrecortada por raios de luar filtrados entre os ramos do arvoredo geometricamente plantado.

            Modestamente iluminada, a Herdade da Coitadinha ergue-se num monte imune à erosão do tempo. A sua imponência contrasta com a simplicidade acolhedora das camaratas que haveriam de dar guarida a almas demasiado habituadas ao frenesim de paisagens electrizantes e desprovidas de natural beleza. A apaziguadora noite de Noudar devolve ao ouvido atento e solitário misteriosos sons e inéditas melodias orquestradas pelos seus camuflados habitantes, numa sinfonia de sons e chamamentos assustadoramente encantadores.

            Numa temerária provocação ao citadino relógio biológico, ao alvorecer percorreram-se montes, calcorrearam-se sendas palmilhadas por pastores e rebanhos, regalando olhos estonteados por visões que o Homem há muito se conformara ter perdido quando miseravelmente assumira o seu papel de intruso na perfeita Ordem Natural. Intrusos eram os binóculos e os disparos automáticos das sofisticadas máquinas da nova geração da arte fotográfica, que se penitenciariam por ter afugentado duas inocentes raposas brincando indiferentes junto às margens do rio. Intruso, mas útil, era o radiogravador que devolveu às escarpas o apelo do Bufo Real, imperturbavelmente dissimulado na rocha, tal gárgula guardiã do vale de Noudar.

 

            A aventura gastronómica da Herdade da Coitadinha ofereceu deliciosos instantes de comunhão com o pecado da gula, mas também atirou alguns para insónias provocadas por inesquecíveis conversas abafadas por alegres e desprendidas gargalhadas à volta de maquiavélicos e cómicos projectos de novas técnicas de caça com simplórios utensílios de cozinha, inventando-se novos animais candidatos a figurar em colecções de cromos, ameaçados por apetites insaciados e por infrutíferas incursões no esverdeado universo da comida vegetariana.

            Superando os milhentos instantes cristalizados na memória digital, em Noudar reforçaram-se laços, acertaram-se amizades e demais cumplicidades entre intelectuais duelos esgrimidos com jogos de nível infantil, ainda assim ganhos pela lendária astúcia feminina. Contaram-se histórias, improvisaram-se tertúlias coloridas, celebrou-se e cantou-se a passagem dos anos ao ritmo de palmas e badaladas.

            O regresso a casa, já carregado de nostalgia melancólica mas repleto de promessas de novos reencontros, deixou ainda tempo para uma atrevida visita aos tempos em que as virtudes da masculinidade se confundiam com uma arte megalítica de contornos duvidosos mas de inegável popularidade.

            As felizes recordações destes efémeros mas intensos dias perdurarão durante muito tempo nas nossas memórias. E ao buscar no céu estrelado os traços da Ursa ou da Cassiopeia, jamais alguém se esquecerá de as dedicar ao nosso…Anjo anfitrião.

             Carlos Cruz