Sardenha - "Explorando a vida marinha do Mediterrâneo"

De 28 de Julho a 5 de Agosto de 2015

    Chegámos, finalmente, à Sardenha. A ilha é muito bonita. É tudo o que eu sempre esperei do mediterrâneo: um mar com uma cor incrivelmente esmeralda ( daí o nome de “Costa Smeralda”), uma paisagem ora de seca vegetação rasteira aqui e ali pontuada por oliveiras, sobreiros e azinheiras, onde languidas ovelhas pastam despreocupadamente; ora de frescas manchas de pinheiro manso que se estendem até ao mar; ora de áridas e abruptas montanhas ou simplesmente de pequenos montes que parecem dar movimento à paisagem e parecem existir unicamente para nos fazer questionar que belezas estarão do outro lado. No norte da ilha, onde fica o nosso resort, a costa está continuamente dentada  por pequenas “calas” ou baías - umas de finas areias muito brancas e águas de um azul improvável, quase branco; outras de pedra e godos; outras de areia escura, que escondem por detrás todo um ecossistema lagunar. Mas todas são incrivelmente belas, incrivelmente serenas e em todas, as montanhas estão sempre visíveis. A ilha não está urbanisticamente pressionada, não havendo prédios nem construção junto ao mar, cujas praias são habitualmente delimitadas ou por frescos pinhais ou por vegetação de barrocal. A construção é geralmente muito bonita, predominando a pedra, madeira e as cores fortes como o ocre e dos alpendres pendem longos panos brancos que esvoaçam ao vento e refrescam só de olhar. Aqui também não é fácil ver mobiliário de plástico branco, o que só por si, já dá um aspeto mais cuidado. Há grandes sebes, buganvílias, rosas de Jericó e outras espécies mediterrânicas por todo o lado, e os canteiros e relvados são bordeados por plantas de cheiro como alecrim, alfazema, erva-caril, tomilho e, inédito para mim, manjericão, imprimindo, assim, à paisagem urbanizada um colorido tom fresco e aromático . Felizmente, apesar da gentileza do clima, os sardos não cederam à moderna tentação de descaracterizar a paisagem com palmeiras. Nada destoa nesta paisagem urbana, harmoniosamente inserida na natureza, sendo  a maioria das espécies utilizadas nos jardins dos resorts e casas de férias  as mesmas que crescem espontaneamente por todo o lado e em que os materiais de construção escolhidos são os que se encontram na natureza, criando um efeito de continuidade muito interessante entre os dois tipos de paisagem. Os sardos preservam muito bem o seu país, do qual são muito orgulhosos. Não gostam dos turistas e como não estão dispostos a estragar o país por causa deles,  não lhes tornam a vida fácil. Como a rede rodoviária está, regra geral,  no interior na ilha, as pessoas têm de se deslocar a pé para as praias, normalmente por bonitos caminhos de terra, que ora atravessam matas, ora serpenteiam pelo barrocal, ora cruzam pastos, havendo portões que se têm de abrir e fechar, conforme os avisos. Querem levar os carros? Muito bem, há alguns parques de estacionamento, mas alguns pagam-se bem caros. O normal das pessoas faz como nós, desloca-se a pé sob o calor tórrido.

    Tal como nas ilhas gregas, a temperatura é muito alta, não havendo grande amplitude térmica entre o dia e a noite (mais ou menos entre os 40ªC e os 30ªC, respectivamente), tão alta que os lagartos e sardões das rochas do nosso jardim ficam a maior parte do dia à sombra e, não fora a brisa forte e cálida, seria tórrido. Por vezes, a brisa cessa e outras vezes a humidade do ar é muita, criando um sufocante efeito de estufa que me lembra o clima da ilha de S. Tomé. Tivemos também dois dias de céu encoberto, com breves períodos de chuva, que além de não mover ninguém quer da água, quer da praia, me fez recordar com saudade o filme Cinema Paradiso, quando a Helena vai de férias, deixando um saudoso Salvattore. Então, numa das noites em que ele leva o cinema itinerante, Salvatore, deitado no porto de pesca, ansioso pelo final do Verão, desabafa “ Quando finirai, estate di merda!!” e eis que começa a chover. Tenho que voltar a ver este filme. Tivemos ainda um animado serão de trovoada.

  

    Para mim, esta ilha dá ao conceito de “férias de luxo” um novo significado. Longe to turismo opressivo, tudo é calmo, silencioso e os pormenores não são descurados. O nosso resort é lindíssimo,  cheio de espaços verdes estrategicamente organizados e bem cuidados, cancelinhas de madeira que fecham caminhos ou propriedades privadas, fileiras de apartamentos bem resguardados do olhar alheio e os rochedos foram integrados na paisagem criando interessantes recantos e conferindo privacidade. O nosso apartamento tem um imenso relvado antes da pequena mancha  de paisagem tipo barrocal por onde segue um trilho que desemboca numa minúscula baía sem praia, cujo leito submarino, pela sua diversidade, é óptimo para snorkeling.

    Aliás, o snorkeling tem sido a minha actividade de estimação nestas férias. Mal chego à praia, visto a t-shirt amarela e ponho os óculos e tubo e lá vou eu, na companhia do Ricardo e, por vezes, do Rodrigo e da Joana, quais voyeurs do mundo do silêncio. Embora inicialmente, meia assustada e fazendo uma respiração ansiosa, tenho evoluído ao longo dos dias para uma serenidade mais consciente das minhas limitações. Apesar desta zona ser parque natural submarino, nem o fundo do mar, nem os seus habitantes são tão exuberantes quanto eu esperava. O leito do mar junto à costa é bastante despido nas praias de areia – daí a cor clara do mar – e nos sítios em que existe rocha, esta está coberta de uma vegetação ou de corais também muito claros, quase da cor da areia, o que obriga toda a vida marinha a também não ter muita cor, por força do mimetismo. Contudo, encontram-se espécies variadas, sendo os mais comuns os:  Sparus aurat (douradas) que nadam em cardumes, os castanho e laranja Coris Julis ( peixe-rei), os coloridos Thalassoma Pavo ( peixe – rainha, macho e fêmea), as Sphyraena borealis (barracuda), os Oblada Melanura  de enormes olhos (dobradas), os Lithognathus mormyrus (Ferreiras), os Serranus Scribba, (“ vacas do mar”, pois passam o tempo a pastar), os  Diplodus Vulgaris, (Sargo –safia), os Diplodus sargus (sargos), as Sarpa salpa ( Salemas), os azuis Chromis chromis ( peixes donzela), os Oedalechilus labeo (parecidos com tainhas) e muitos outros que ainda não consegui identificar.

  

    Para minha grande surpresa, tenho vindo a constatar que os peixes são animais muito mais interessantes do que à partida supunha. Irritam-se ou sentem-se ameaçados e levantam a espinha dorsal, como os cães e gatos, sentem por nós um misto de medo e curiosidade e ora se afastam para uma distância segura ora nos seguem, observando-nos meticulosamente... Eu até já tenho um séquito de seguidores, que, numa relação de comensalismo esperam debicar os resíduos de areia que eu remexo ou comerem os ouriços que eu abro.

    Quanto aos serões, estes são passadas ora na casa dos nossos amigos, dinamizados por uma animada conversa ao som da festa num resort do outro lado do vale ora na tranquilidade do nosso alpendre a ouvir o suave marulho da nossa baía e a música longínqua dos iates iluminados. E fundeia cada iate ao largo da ilha!!

    Para resumir, estas foram umas férias deliciosas pelo prazer das companhias, pela beleza e serenidade do espaço e pela forma como nós ocupamos o tempo.

Sofia Salgado