Sierra de la Culebra - "O Lobo Ibérico"

De 25 a 28 de Agosto de 2009

 

    Desde o Norte de Portugal, é um tiro... Em apenas 3 horas de tranquila viagem, tomando a A7, engatando na A24 rumo a Chaves, e daí por Verín, chegamos à Província de Zamora, ao encontro dos lobos da Serra da Culebra, com a sua rica biodiversidade e os seus magníficos habitats, onde se trava uma excelente relação entre a paisagem e a acção humana.

    Tendo como meta principal observar e fotografar um dos últimos redutos selvagens do lobo ibérico, o nosso passeio, bem idealizado pelo incansável Paulo Anjo, começa numa manhã radiosa, terça-feira, dia 25 de Agosto, sem o mínimo sobressalto.

    Na zona de Feces de Abajo, já em território galego, ficamos a conhecer a Clara Espírito Santo, bióloga, que segue connosco a partir da estação de serviço, onde muitos aproveitam para atestar o gasóleo. O destino, traçado pela empresa www.montes-de-encanto.pt, leva-nos até um pueblo que há-de ficar bem marcado na nossa memória. Aldeiazinha de granitos e rochas metamórficas, com grande destaque para a pedra pizarra, muito presente na arquitectura popular. Na torre da igreja, adornada com grandes lajes de ardósia, permanece um engraçado ninho de Cegonha Branca.

    Implantado no coração do pueblo está o nosso alojamento, com os seus agradáveis 10 quartos duplos, sala de restaurante, bar-cafetaria, um pequeno centro de interpretação da Natureza, especialmente da fascinante e mágica Reserva Regional de Caza da Sierra de La Culebra. E só estamos a uns escassos 58 km de Bragança!

    Alguns problemas de abastecimento têm de ser resolvidos em Mahíde ou Vilardeciervos. «Somos apenas 7 habitantes; e com esta desertificação só nos resta o turismo, a Natureza, as tradições...» - explica António Peñalver, o dono da casa de turismo. Mas onde é que já ouvimos esta conversa?...

    Diariamente, bem ao jeito dos nossos guias, Paulo e Clara, impera um silêncio cúmplice e uma forte e justificada disciplina horária. Saída para os montes por volta das 6h30, bem antes do Sol raiar na parte oriental da Culebra, regresso ao alojamento para um pequeno desayuno, um passeio até ao almoço, depois um descanso estratégico, recobrando a energia para a jornada do entardecer (com regresso a casa pelas 22h00), quando os bichos saem das sombras e começa de novo a agitação nos matorrales... E, por vezes, até na linha dos estradões de terra, largos aceiros que riscam de amarelo os aglomerados de pinus sylvestris, carvalhais (quercus pyrenaica), soutos e  matagais de urzes e carquejas.

 

 

 

    Os estradões e as ladeiras das charcas são excelentes locais para observarmos rastos e pegadas. A espera dos animais só com autorização da Reserva Regional de Caza.

    De lés-a-lés, a Culebra vive dominada pelas alcateias. Nos céus, reina o majestoso abutre leonado (Gips fulvus), sempre atento à actividade dos lobos carroñeros e de outros necrófagos.

    Por alturas e vales de Ferreras de Arribas há uma profusão de aves de rapina, sendo fácil, praticamente a olho nu, observar milhafres, águias-calçadas, falcões e graúdos bandos de corvos.

    Uma noite, de regresso ao alojamento, um raposinho embrenhou-se no mato ao alcance dos faróis. E certa manhã, o Paulo, com a sua vista bem treinada e a sua concentração felina, descortinou um javali sumindo-se num bosque de carvalhos e castanheiros.

    Na quarta-feira, primeiro dia de verdadeira exploração, experimentámos um famoso ponto de observação, com uma vista de cortar a respiração para um Vale onde pastam manadas de veados, corços e outros mamíferos. Todos na mira dos binóculos e da alcateia acoitada no pinhal, fomentando em nós sensações arrepiantes.

 

 

    Por entre estas colinas ondeadas, cortadas por uma antiquíssima estrada romana (itinerário XVII de António Pio), estamos cerca de mil metros acima do nível do oceano,  com o vértice geodésico de Peña Mira superando os 1 240 m. «Outra vez os homens do alcatrão!» - lamenta a nossa guia, preocupada com os efeitos do areão nos discos dos travões. Pequenos incómodos que pouco ou nada interferem no balanço de mais um dia agradável e de prazeirenta viagem pelos contrafortes da serra. E, quinta-feira, além de novas observações, gostei de conhecer o complexo agro-pastoril, cerca de Ferreras de Arribas, com as suas bonitas “palhotas”, o que veio mesmo a calhar para activar a minha veia etnográfica. Um bom local também para o Paulo Anjo nos dar umas lições de fotografia digital, aproveitando as difíceis condições de luz de um tórrido meio-dia.

    Na véspera da partida, 27 de Agosto, reconfortados pela sopa de calabacín, adormecemos excitados com os planos para uma alvorada num novo ponto de observação, num percurso que dá para fazer a pé desde a aldeia.  

 

 

 

    Nesse novo local, o biólogo Sergi, que possui uma típica casinha rústica junto ao alojamento, tinha avistado vários lobos em outras campanhas; e assegura que ali estavam lobas com suas madrigueras.

    Entretanto, para descansar a retina, trocam-se argumentos e explicações sobre lentes telescópicas, a ferramenta ideal para não interferir no desenrolar da vida selvagem. E foi assim que pude ver uma «hiembra» de veado dando de mamar a um lindo «ciervadito».

    A reserva tem mais de 1 000 cervídeos, que são a grande base da caça para os lobos. E que, por altura, da berrea (brama) proporcionam dias de intensa animação. Por enquanto, em Agosto, quem dá música são os abelharucos. Os uivos, esses estão retraídos nas barrigas saciadas de lobos e lobachos.

    De resto, cruzam-se por ali as rotas de cientistas ou de simples aficionados com a abordagem dos informadores locais. E, claro, abundam as histórias do nosso carnívoro que aparece e desaparece, de peripécias incríveis sobre encontros imediatos. O assunto já tinha sido, aliás, brilhantemente enquadrado numa palestra da Clara E. S., bem documentada com exemplos e ilustrações baseados em aturado trabalho de campo. De modo que os relatos vivos de alguns intervenientes são mais fáceis de descodificar à luz da vetusta conflitualidade entre o Homem e o Lobo. Pelo meio, é mais difícil de entender o papel dos guardas da Reserva, cujo comportamento oscila entre o facilitismo e uma grande dissuasão, que ora agradam aos mais “puristas”, ora são bem acolhidas pelos que pretendem um troféu ali ao virar da esquina. E aqui entra a polémica sobre a “carronha”, com burros velhos e cansados atirados às mandíbulas dos grandes canídeos. Uma prática que, este ano, está regularmente suspensa.

    Na manhã de sexta-feira (28 de Agosto), logo ao desarmar dos telescópios, abrem-se as primeiras ondas de saudade da Culebra, dos seus habitantes, da aldeia, por onde os lobos se passeiam às vezes, impelidos pela escassez de alimento e movidos por uma espécie de mágica sobranceria.

    O Paulo já pensa em voltar, atraído pelas qualidades únicas desta Reserva para fotografar a vida selvagem. Fico-lhe grato pela sua afeição aos animais e seus habitats; e pelo gosto de partilhar a aventura da ecologia.

    Um obrigado também aos demais parceiros de viagem e em particular à Clara Espírito Santo.

    Talvez para renegar a despedida, o meu subconsciente pregou-me uma partida inusitada:  no bolso das calças veio esquecida a chave do quarto do alojamento. Perdoa-me, António! – é um sinal de que tenho de voltar ao mundo dos lobos, para melhor compreender a selvajaria humana e para saciar, com olho de lince, a vista de um dos mais furtivos mamíferos que habitam a Europa.

    De resto, fazer-vos este breve relato foi uma forma de exorcizar a melancólica saudade que mantém a Culebra presa nas meninges.

 

Domingos Xavier